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Viola caipira ou guitarra elétrica: a guerra silenciosa que move o sertanejo brasileiro

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Viola caipira ou guitarra elétrica: a guerra silenciosa que move o sertanejo brasileiro

Se você já discutiu com alguém na fila do churrasco sobre qual é o "sertanejo de verdade", saiba que não está sozinho. Esse debate ferve nos grupos de família, nas rádios do interior de Goiás, nas mesas de bar de São Paulo e, claro, nos comentários do YouTube. Mas será que essa rivalidade faz sentido? Ou os dois lados estão, na verdade, alimentando a mesma chama?

A Rádio Rama Brasil foi fundo nessa conversa pra entender o que separa — e o que une — o sertanejo universitário e o sertanejo raiz. Spoiler: a resposta é mais complexa e mais bonita do que parece.

As raízes que ninguém esquece

O sertanejo raiz nasceu do chão batido. Surgiu das modas de viola, das duplas que cantavam sobre a saudade da roça, da lida com o gado, do amor sofrido e da devoção religiosa. Nomes como Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, e Milionário e José Rico são pilares desse universo. A voz anasalada, a viola dedilhada e as letras que pareciam contar histórias de avô para neto — tudo isso formava uma identidade sonora fortíssima.

Essa música não era entretenimento no sentido moderno da palavra. Era crônica social. Era o registro de um Brasil rural que vivia de sol a sol, que migrava para as cidades grandes mas carregava o interior no peito. Quem cresceu ouvindo essas duplas sabe que há uma emoção difícil de traduzir — é quase como escutar um documento histórico que dói de tão verdadeiro.

"O sertanejo raiz é memória afetiva. Quando meu pai coloca Tião Carreiro no som do caminhão, ele não tá só ouvindo música. Ele tá voltando pra casa", conta Seu Benedito, produtor rural de Uberlândia que acompanha o gênero há mais de quarenta anos.

A universidade entrou no palco

Lá pelos anos 1990 e início dos 2000, algo começou a mudar. As duplas sertanejas passaram a tocar em festas universitárias, a incorporar batidas mais dançantes, letras sobre balada, traição urbana e relacionamentos modernos. A guitarra elétrica ganhou espaço. O ritmo ficou mais acelerado. E o público, de repente, ficou muito maior.

O sertanejo universitário — termo que surgiu exatamente para distinguir esse novo formato — explodiu com duplas como Victor e Leo, Luan Santana, João Bosco e Vinícius, e depois com a geração de Henrique e Juliano, Israel e Rodolffo, e tantos outros. Os shows viraram espetáculos com telão, fogos e bandas completas. O agronegócio cultural estava em pleno vapor.

O fenômeno não foi apenas musical. Foi mercadológico. As gravadoras perceberam que havia um público jovem, com poder de consumo, que queria se identificar com o campo sem necessariamente viver nele. O cowboy de botas e camisa xadrez virou símbolo de estilo, não só de profissão.

"A gente não abandonou a raiz, a gente plantou em terra nova", defende o produtor musical Caio Drummond, que trabalha com duplas sertanejas em Goiânia há mais de quinze anos. "O universitário pegou a essência emocional do sertanejo — o amor, a saudade, a vida simples — e colocou numa embalagem que o jovem de hoje consegue ouvir no fone de ouvido sem sentir que tá fora do tempo."

O que separa os dois mundos

As diferenças são reais e vão além do instrumento ou do ritmo. O sertanejo raiz tem uma postura estética mais contida: as duplas geralmente se vestem de forma simples, a performance é menos teatral e o foco recai sobre a qualidade vocal e a harmonia entre as vozes. Há uma reverência ao passado que é quase litúrgica.

Já o universitário abraça o espetáculo. A produção visual importa tanto quanto a música. As letras falam de situações do cotidiano urbano-rural misturado — a namorada que foi embora, a noite na fazenda com som alto, o sofrimento glamourizado. É um sertanejo que não tem vergonha de ser pop.

Para muitos puristas, essa transição foi uma traição. "Eles pegaram a viola e jogaram no canto pra botar guitarra com distorção. Isso não é sertanejo, é pagode com chapéu", reclama dona Aparecida, de 68 anos, moradora de Ribeirão Preto e fã fervorosa das duplas antigas.

Mas os defensores do universitário rebateram com números: o sertanejo é hoje o gênero mais ouvido do Brasil no streaming. Supera funk, samba e até o axé nos períodos de pico. E parte desse alcance se deve exatamente à renovação do gênero.

A coexistência que ninguém esperava

O que surpreende, quando você conversa com quem está dentro da cena, é que a rivalidade existe mais no discurso do que na prática. Muitos artistas do universitário cresceram ouvindo raiz. E vários festivais e eventos já misturam os dois estilos no mesmo palco, mostrando que o público consegue transitar entre os mundos sem drama.

Além disso, há um movimento crescente de artistas que trabalham numa zona de fusão: pegam a instrumentação e a narrativa do raiz e aplicam uma produção contemporânea. Renato Teixeira, Almir Sater e mais recentemente artistas como Sérgio Reis continuam relevantes justamente porque nunca abriram mão da identidade original — e mesmo assim dialogam com novas gerações.

"O sertanejo é um rio", filosofa o músico e arranjador Marcos Pereira, que já trabalhou com duplas dos dois lados. "Ele nasce lá em cima, na montanha, com aquela força toda. E vai descendo, pegando afluentes, se misturando. Quando chega ao mar, não é mais o mesmo — mas continua sendo o mesmo rio."

O que a Rádio Rama Brasil pensa sobre tudo isso

Aqui na Rádio Rama, a gente acredita que música brasileira não cabe em caixinha. O sertanejo raiz é patrimônio imaterial desse país — um acervo de sentimentos e histórias que não pode ser esquecido. Mas o universitário também é Brasil: é a festa, é o amor que dói mas ainda dança, é o agro que virou pop.

Os dois precisam existir. Os dois merecem respeito. E quem ganha com essa convivência é o ouvinte — que pode começar a noite com Tião Carreiro e terminar cantando Jorge e Mateus sem sentir nenhuma contradição.

Afinal, o coração do Brasil é grande. Cabe viola e guitarra, caipira e universitário, saudade do passado e empolgação com o presente. É isso que faz do sertanejo — em todas as suas formas — a música que continua pulsando de norte a sul desse país imenso e apaixonante.

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